Histórico do Jogo de Areia

O JOGO DE AREIA, ou tabuleiro de areia, ou caixa de areia, é conhecido por Sandplay, teve origem no World Technique, pela psiquiatra Jane Margaret Lowenfeld (1890-1973), na Inglaterra, através da "Wonder box", tendo sido posteriormente adaptado e difundido por Dora Kalff (1904-1990), analista Junguiana, inicialmente na Suiça e posteriormente noutros países na década de 50.
M. Lowenfeld, inspirou-se no livro, "Floor Games" (1911), do escritor Inglês de literatura infantil, Herbert George Wells (1866-1946), autor também dos livros "A máquina do tempo" (1895),"O homem invisivel" (1897) e "A guerra dos Mundos" (1898), entre muitos outros. No livro "Floor Games" (Jogos do Chão), o autor descrevia as brincadeiras que realizava com seus dois filhos, que se sentavam no chão e que construiam, de forma expontânea, cidades e diversos mundos em fantasia, com vários materiais tais como, bocados de madeira, plasticina, papel, entre outros.

Posteriormente, através do livro Little Wars, o autor proponha um jogo que era efectuado através de uma colecção de miniaturas de soldados, fortes, casas, que se colocavam dispostos no chão, constituindo cenários de guerra. Este jogo permitia a participação de todos os elementos da família, estabelecendo um conjunto de regras simples e genéricas, que ainda é considerado como um livro de referência, entre os livros de jogos de guerra.

Com base na leitura deste livro, Floor Games, a pediatra inglesa Lowenfeld, criou a "Wonder Box", (Caixa Maravilha), sendo pioneira na psicoterapia infantil da utilização de caixa de areia, com água e objectos em miniatura, incorporando teorias de Freud e de Winnicott. Tinha no seu consultório duas caixas de zinco, uma com areia seca e outra com areia molhada para que nelas as crianças podessem brincar. Estas colocavam na caixa alguns brinquedos e miniaturas, que se encontravam em pequenas gavetas existentes dentro de um armário fechado e construiam de forma expontânea, aquilo a que chamavam de "pequenos mundos". Segundo a autora, através da construção desses mundos exteriores, as crianças, expressavam os seus mundos interiores sem necessitarem de verbalização. Nada fazia para alterar as escolhas da criança, nem nada de forma a alterar o jogo de forma a não alterar o comportamento da criança.

Jane Margaret Lowenfeld (1890 -1973)
Nesta época, início do séc. XX, os jogos de tabuleiros agradavam a todos, sendo que havia pouca diferença entre os jogos de adultos e de crianças. O interesse pelos jogos e pelos brinquedos, na clínica psicológica acentuou-se a partir da II guerra mundial, sendo muito utilizado como forma de expressão e representação dos sentimentos, emoções e dificuldades. Nas décadas de 30 a 50 do séc XX, o uso de objectos em miniatura com fins educativos, terapêuticos e de pesquisa, despertou o interesse pelo jogo e pela criatividade, começou a crescer um pouco por todo o mundo, tendo vários autores proposto a sua utilização no espaço psicoterapêutico com crianças, destacando-se entre outros, Melanie Klein (1882-1960), Anna Freud (1895-1982), Donnald Winnicott (1896-1971) (Técnica do Rabisco), Erik H. Erikson (1902-1994), (1930, Dramatic Productions Test- DPT), Charlotte Bertha Buhler (1893-1974), (World Test, Teste do Mundo), Gerdhild von Staabs criou o Sceno-Test na Alemanha, técnica diagnóstica para crianças em que utilizavam miniaturas humanas para criar cenas. Posteriormente em 1950, Murphy criou o Miniature Toy Interview, em Nova Yorque (Gimenez, 2009). A autora indica que nenhum dos pesquisadores conhecia o trabalho do outro.
Para Franco (2008), a intenção era oferecer às crianças um meio para poderem falarem por si próprias do seu estado fisico e emocional, daquilo que efectivamente as fazia vir à consulta e que muitas das vezes as pessoas que as traziam não conseguiam expressar por elas. Por volta de 1956, a Suiça Dora
Maria Kalff (1904-1990), analista, na altura em formação no Intituto C.G.Jung, de Zurique, após ter assistido a uma comunicação de Lowenfeld, num congresso em Zurique, no qual a autora apresentou os seus trabalhos utilizando o "Jogo do Mundo" , onde as crianças se expressavam de forma não-verbal, utilizando miniaturas numa caixa com areia, sob a influência de Ema e C. G. Jung, foi para Londres estudar esta técnica, durante um ano (Mitchell & Friedman,1994).

Dora Maria Kalff (1904-1990)
De regresso a Zurique adaptou, ampliou e desenvolveu a forma de usar este material, chamando-o de sandspiel - termo alemão, utilizando-o também com fins terapêuticos (Yoshikawa,1999), tendo-o introduzido, não só em Zurique como um pouco por todo o mundo, onde treinou com vários terapeutas (Cruz & Fialho, 1998). No ano de 1956, Dora Kalff estuda no Institute for Child Psychology, em Londres, juntamente com M. Lowenfeld, Donnald Winnicott (1896-1971) e Michael Fordham (1905-1995). Kalff, adoptou os príncipios básicos de Lowenfeld, na sua perspectiva que estava muito entrosada na filosofia oriental, nomeadamente nos seus interesses pelo budismo tibetano, e nos conhecimentos da teoria jungiana, reconhecendo a importância do símbolo e da linguagem simbólica, tendo por base um dos seus postulados, de que existe na psique humana um forte impulso em direcção à totalidade e à cura, através de necanismos homeostáticos (Weinrib, 1993). Este postulado está relacionado com a ideia de self, exprimindo a ideia de um centro ordenador na psique e ao mesmo tempo representando a sua própria totalidade. Uma das permissas básicas da terapia do jogo de areia, na sua utilização junguiana, é de que a psique tem uma tendência natural para se restaurar a si mesmo dadas as condições adequadas.

Carl Gustav Jung (1875 - 1961)
O jogo de areia funciona como um veículo para que o inconsciente se veja e se dê a conhecer (Mitchell & Friedman 2005). Através dos trabalhos efectuados, percebeu que as criações das crianças correspondiam ao processo de individuação, descrito por Jung, tendo a partir daí desenvolvido o seu próprio método aplicando os principios da psicologia analítica, e chamando-o de sandplay. Escreve um livro, apenas publicado na Suiça em 1966 com o nome de "Sandspiel", que teve a primeira versão Americana em 1971, com o nome de "Sandplay: Mirror of a Child's Psyche", sendo republicado em 1980, agora com o nome de "Sandplay: A Psychoterapeutic Aproach To The Psyche" (Franco, 2003).
" Sandplay é o método que utilizo em terapia tanto com
crianças como com adultos para aceder aos conteúdos do inconsciente. Como seu
nome sugere, consiste em jogar numa caixa de madeira, com determinadas
porporções (...) se oferece assim a areia seca e molhada, Os pacientes também
têm à sua disposição um número de pequenas figuras com os quais dão realização
formal a seus mundos internos. As figuras que podem escolher, devem oferecer de
maneira mais completa possível, uma mostra representativa de todos os seres
animados e inanimados que podemos encontrar no mundo externo assim como no mundo
imaginário interno (...)"
(Dora kalff. Journal of Sandplay Therapy, Volume 1, Number 1, 1991)
Trata-se de uma técnica de carácter vivencial, não-verbal, não-racional que consiste numa forma geral, na criação de cenas tridimensionais, com o uso de objectos em miniatura, que representam, todo o mundo que nos rodeia, numa caixa de madeira com tamanho específico, com o interior de cor azul, contendo areia seca ou molhada (Weinrib, 1993).Segundo Weinrib (1993), para Kalff o aspecto central do jogo de areia é o conceito de "espaço livre e protegido".
O tamanho específico do tabuleiro, permite ao sujeito ter uma visão constante sobre o espaço livre da construção, assim como encoraja a concentração, ajudando a desbloquear emoções e sentimentos. Nas palavras de Kalff (1980), permite limitar a imaginação do paciente, funcionando como factor de regulação
e de protecção. Os objectos, normalmente encontram-se em prateleiras ou armários e são colocados à disposição do sujeito, de forma a construir com eles um cenário.
Trata-se de um jogo sem regras, num "espaço livre e protegido", tal como Kalff defendia, tipo "útero materno" (que permite a renovação e o renascimento), facilitador e desbloqueador, no qual a criança ou adulto, é conviaddo a montar dentro da caixa a cena que quiser. Neste jogo criado, não é necessário possuir qualquer habilidade ou competência artística em especial. Desta forma o individuo fica livre para externalizar seu mundo interior, de maneira lúdica e criativa.
Através deste movimento oferece-se a oportunidade para que o sujeito consiga romper com a ilusão da perfeição, da superioridade, da racionalização e da rigidificação, e reencontre a sua espontaneidade, a liberdade de criar e de se expressar,provocando o acordar e o despertar da criatividade que há em cada um de nós, daí podermos afirmar que o seu uso facilita todo o processo educativo e terapêutico. O jogo de areia funciona como um espaço psicológico, espaço emocional livre e protegido. É um espaço activo, espaço de experimentação e transformação constante, espaço potencial. O próprio tabuleiro de areia activa esse mesmo espaço potencial, desencadeando um processo transformador. Trata-se de um método projectivo, não-verbal, não interpretativo e não racional. A sua utilização normalmente é percebida como não ameaçadora, sem regras específicas, ocorrendo num ambiente de apoio e segurança, motivando a participação e a colaboração livre e directa do sujeito ao longo das diversas sessões. A sua prática consiste na construção de cenários numa caixa, tabuleiro com areia seca ou molhada, de forma livre, moldando a areia ou através de diversos objectos em miniatura, que constituem a colecção.
Franco & Batista (2003), referem que uma das principais características do tabuleiro de areia é a sua versatilidade, apresentando-se este material com infinitas possibilidades de aplicação, quer dentro quer fora da clínica psicológica. Referem-se à sua inserção em diversos contextos da psicologia clínica, tais como: psicoterapia individual, psicoterapia de casais, orientação profissional, tratamento breve de doenças psicossomáticas, entre muitos outros. Inicialmente foi utilizado na clínica psicoterapêutica individual de longa duração, segundo uma orientação teórica junguiana (Kalf, 1980, 2003; Ammann, 2004; Weinrib,1993; Zimmermann, 1996; Levy, 2011), contudo graças às suas múltiplas potencialidades rapidamente se tem expandido para outros campos de aplicação, principalmente ao contexto educativo e sociocomunitário (Andion, 2010; Barbosa, 2010; Franco, 2008; Scoz, 2008, 2011; Cavalcanti, 2008; Cavalcanti et al. 2010).
Apesar da proposta inicial de Kalff limitar o uso do tabuleiro de areia exclusivamente para fins psicoterapêuticos na clínica individual, a sua aplicação e divulgação foi-se desenvolvendo ao longo dos anos, através de vários estudos em diversos países do mundo, especialmente na Europa, nos EUA, onde foi amplamente difundida por Estelle Weinrib, no Brasil e Japão, sendo representada sob a forma de diversas Associações. De forma geral, podemos afirmar que o jogo de areia, rapidamente se difundiu a vários países da europa e do mundo e tem diversas utilizações, sob diferentes perspectivas teóricas que o fundamentam enquanto técnica e método de intervenção.
Se o modelo proposto por Dora Kalf não englobava o diálogo activo com a imagem, assim como uma descrição fenomenológica ou imagética com a imagem, posteriormente Weinrib (1993:12), divulgou o jogo de areia enfatizando os seus aspectos lúdicos, de criação livre e de ausência de instruções dadas aos sujeitos, como um "jogo sem regras", destacando ainda o seu carácter experimental não verbal.
Weinrib (1993), Carey (1999) e Bradway e col. (1996), introduziram diversas variações ao modelo proposto por Kalff, no que diz respeito ao setting, sugerindo que o terapeuta tivesse uma postura mais activa e interventiva, estimulando a interacção com as cenas produzidas ao longo do jogo de areia. Franco & Batista (2003), referem que uma das principais características do jogo de areia é a sua versatilidade, apresentando-se este material com infinitas possibilidades de aplicação, quer dentro quer fora da clínica psicológica. Referem-se à sua inserção em diversos contextos da psicologia clínica, tais como: psicoterapia individual,
psicoterapia de casais, orientação profissional, tratamento breve de doenças psicossomáticas, entre muitos outros. O jogo de areia tem sido amplamente divulgado e praticado em inúmeas pesquisas, que proposeram modificações nas suas bases originais, destacando-se alteração ao formato e tamanho das caixas de areia, até mesmo adaptações ao seu uso em psicodiagnóstico (Mitchell & Friedman, 1994).
Segundo Mitchell e Friedman (1994), existem diversos grupos que se dedicam ao estudo e investigação do jogo de areia em vários países, como Havai, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Itália e Japão. Sant'Anna et. al.(2000), indicam que por exemplo no Japão e no que diz respeito à sua utilização em contexto hospitalar, é utilizado na sua grande maioria em instituições psiquiátricas, nos Estados Unidos existem vários trabalhos efectuados com crianças hospitalizadas: em terapia familiar, com grupos de jovens delinquentes e toxicodependentes institucionalizados e em aconselhamento de jovens e adultos, em Israel há a assinalar a existência de uma associação de terapeutas que trabalham em hospitais com um grande número de pacientes com diversas disfunções. Embora tradicionalmente o jogo de areia tenha sido utilizado como uma técnica psicoterapêutica individual de longa duração, de carácer não verbal e não interpretativa, sob uma abordagem teórica junguiana, contudo rapidamente e graças às suas inúmeras possibilidades, enquanto método e técnica, tem sido utilizado em diversos campos, tais como na educação, em instituições, em grupos, famílias ou casais (Sant'Anna, 2000). Este psicólogo, ligado ao núcleo de pesquisa, ensino e práticas do Jogo de Areia, na Faculdade de Psicologia da Universidade Presbiteriana de Mackenzie, em São Paulo, no Brasil, em conjunto com outros investigadores no desenvolvimento das suas pesquisas criaram uma caixa de areia portátil, que pode ser facilmente transportada e levada de cama para cama em contexto hospitalar. Segundo o autor, a caixa foi redimensionada para se adequar mais facilmente ao atendimento a sujeitos que se encontram na cama e as miniaturas afixadas na tampa da caixa (Sant'Anna, 2001).
No campo clínico e da saúde, o jogo de areia tem sido utilizado em determinados grupos especiais e em determinadas situações tal como o apontam Mitchell e Friedman (1994), com crianças portadoras de doenças terminais (Amatruda, 1984); crianças vitimas de abusos sexuais (Alan & Lawton.Speert,1989, citados por Franco, 2008); no atendimento multidisciplinar com crianças portadoras de deficiências auditivas e seus familiares (Franco, Weiss, Lichtig, Cárnio e Tardivo (2005); em crianças vítimas de cancro e de traumas (Amatruda & Simpson, 1997); na dor crónica (Franco, 2003); no tratamento de crianças com transtorno obsessivo-compulsivo (Matta, 2006, 2007); com crianças com problemas de indisciplina (Martins,1999); no atendimento psicológico com doentes com o membro amputado (Bazhuni, & Sant' Anna, 2006); como material lúdico para estudar a capacidade da criança expressar a sua subjectividade através da interpretação
do brincar simbólico (Vieira, 2006); como técnica facilitadora da integração de processos simbólicos e como instrumento facilitador para a orientação profissional (Zimmermann, 1996); para trabalhar a relação terapeuta-cliente e os fenómenos emergentes desta relação, assim como na supervisão da prática clínica e socioeducativa a partir de uma abordagem e metodologia psicodramática junguiana (Ramalho et col 2010); na estimulação do imaginário em idosos asilados (Cardoso & Loureiro, 2009), entre muitos outros.
No campo da educação vem sendo utilizado como técnica auxiliar, devido às suas potencialidades mediadoras e projectivas (Sant'anna, 2000); como instrumento metodológico na construção do conhecimento, numa abordagem transdisciplinar no ensino-aprendizagem, como uma estratégia ludopoiética e como técnica de pesquisa que complementa entrevistas e outras abordagens para a construção de dados subjectivos (Cavalcanti 2008, Cavalcanti et. al. 2010); como estratégia pedagógica quer na educação infantil, quer na aprendizagem da música, através da construção de partituras de música na areia, quer preparando para a educação e o lazer, quer na formação de educadores e professores no caso de educação fisica, na aprendizagem da geografia (Cavalcanti et al. 2010); como estratégia de intervenção psicopedagógica tendo por base a teoria piagetiana (Andion, 2010); como instrumento pedagógico que promove a construção da subjectividade e da identidade de professores e educadores (Scoz, 2011).
Tal como indicam os estudos de Allan & Berry,1987; Currant, 1989; Vinturella & James, 1987, citados por Mitchell &Friedmann (1994), tem sido utilizado nas escolas públicas norte-americanas, quer pelos professores e orientadores escolares,tendo os autores descrito melhorias significativas nos processos de
aprendizagem dos alunos, contribuindo no crescimento psicológico, fortalecendo aumentando a auto-estima, contribuindo no aprofundamento de aspectos comunicacionais, facilitando uma maior receptividade para a aprendizagem, através de maior capacidade de concentração e pelo maior envolvimento nas actividades académicas. Neste caso o educador não estaria fazendo psicoterapia, com o jogo de areia, mas sim funcionaria como um recurso pedagógico facilitando o jogo imaginativo, através das propriedades lúdicas e expressivas que o próprio material promove. Começou a ser utilizado como recurso didáctico/ pedagógico, no campo educativo, apresentando-se como uma nova técnica educacional (Barbosa, 2010).
Franco (2008), na sua investigação sobre as vivências didácticas no ensino do jogo de areia, partindo de uma orientação teórica junguiana, criou um projecto pedagógico a que chamou vivência didáctica, tendo analisado de que forma o jogo de areia funciona como um espaço potencial, privilegiado para favorecer a construção da identidade profissional do psicólogo clínico brasileiro, especialmente no âmbito da especialização no Jogo de Areia. O jogo de areia foi utilizado como um procedimento projectivo, proporcionando uma nova modalidade de ensino-aprendizagem na clínica psicológica, ao mesmo tempo que demonstrou a sua riqueza expressiva e criativa.
No campo da psicologia da educação podemos referir a investigação levada a cabo pela psicopedagoga Scoz (2004, 2008, 2011), na qual utiliza o jogo de areia como uma técnica vivencial que pode contribuir na formação pessoal dos professores, servindo para análise de situações de ensino-aprendizagem. Reconheceu que através do jogo de areia favorece-se a compreensão da construção da subjectividade e da identidade dos professores, através da configuração dos sentidos que produzem nos seus processos de aprender e ensinar, além de aprofundar a sua própria auto percepção. Estes estudos apoiam-se em vários teóricos da educação, tal como González Rey (2003), Vygotsky (1998) e Fernández (2001, citados por Scoz, 2004, 2011). Para Scoz (2011), o enquadramento da pesquisa académica sobre o jogo de areia é ainda pequeno quer a nível internacional, quer ao nível nacional, aqui entendido como referindo-se ao contexto brasileiro. Franco (2008:85-86), ao abordar o ensino do jogo de areia no Brasil, descrimina um conjunto bastante alargado de Universidades, onde o jogo de areia é leccionado, em vários cursos de pós graduação em psicologia, ou fazendo parte da clínica-escola pertencente das várias universidades, embora chegue a afirmar que "nos mais de 356 cursos de Psicologia, que actualmente formam os psicólogos brasileiros, (...) sua inserção nos meios universitários é feita ainda de forma pouco expressiva".
No nosso País, desconhecemos qual o seu verdadeiro estado de desenvolvimento e utilização, quer em contexto institucional quer em contexto de clínica privada, reflectindo-se isto na ausência de trabalhos publicados sobre o assunto.
Franco & Batista (2003),referem que uma das principais características do jogo de areia é a sua versatilidade, apresentando-se este material com infinitas possibilidades de aplicação, quer dentro quer fora da clínica psicológica. Referem-se à sua inserção em diversos contextos da psicologia clínica, tais como: psicoterapia individual, psicoterapia de casais, orientação profissional, tratamento breve de doenças psicossomáticas, entre muitos outros.
A multiplicidade de campos, contextos e populações no qual o jogo de areia é utilizado, confirmam a ideia original da sua criadora, Kalff (1980), na qual o jogo de areia não é apenas um método terapêutico, mas constitui-se como um meio activo através do qual os conteúdos da imaginação são tornados reais e visíveis, ou as palavras de Weinrib (1993:138), que ao terminar o livro "Imagens do Self: o processo terapêutico na caixa de areia", afirma que actualmente tanto a importância como o sentido mais amplo da terapia na caixa de areia ainda não foram plenamente explorados.
Para Ammann (2004), trata-se de um instrumento de carácter não verbal, um recurso que não requer do sujeito habilidades especiais, sendo por isso altamente atraente para aqueles que dele fazem uso. Daqui poderemos realçar e destacar o aspecto expressivo, criativo, lúdico, reflexivo, que todo o jogo de areia se reveste.
Os vários autores realçam o carácter mediativo, comunicativo, interactivo, destacando as suas possibilidades projectivas. Nesta vertente, o facilitador desempenha uma postura mais activa e interventiva, estimulando a interacção verbal com as cenas construidas no tabuleiro de areia. Pode-se utilizar a areia para criar cenários ou paisagens com os objectos em miniatura ou pode-se simplesmente moldar e brincar com a areia. Sugere-se que o terapeuta estimule o paciente a contar uma história com as cenas e que faça comentários sobre algo que lhe ocorra. Nada deve ser explicado ou interpretado no momento.
Pode ser utilizado por crianças e adultos e normalmente despoleta nos sujeitos um grande prazer devido às características lúdicas que todo o jogo se reveste assim como devido aos materiais, areia, água, objectos em miniatura. Ao mesmo tempo, através da sua utilização permite promover, desenvolver e ampliar o uso da fantasia, da imaginação livre, da expressividade e da criatividade do sujeito.
Para a sua criadora, Kalff (1980), o tabuleiro de areia não é apenas um método terapêutico, mas constitui-se como meio activo e criativo, através do qual os
conteúdos da imaginação são tornados reais e visíveis. Por outro lado, segundo a autora, permite ao terapeuta ter a oportunidade de observar e acompanhar os
processos de desenvolvimento e de cura.
O material é composto por duas caixas, rectangulares de madeira, com dimensões especificas de 72x50x7,5 cm, com o fundo e as laterais de cor azul marinho, representando a água (mar, rio, lago, oceano) e o céu, o horizonte, cheias até metade com areia seca ou molhada, assim como vários objetos em miniatura, colocadas em estantes ou prateleiras, para o sujeito poder criar o seu cenário.
A plasticidade da areia favorece uma imensa possibilidade de expressões o que faz dela um importante recurso pedagógico, educativo e terapêutico.A areia em estado seco favorece um toque macio e pode transmitir a sensação de fluidez e de instabilidade. Devido à sua leveza, pode ser modelada por um pequeno toque ou sopro, porém é dificil controlá-la ou fixá-la em formas muitos delimitadas.Neste material encontramos a representação simbólica dos quatro elementos, assim como o poder curativo, transformador, espiritual, transpessoal e mágico de antigas tradições, culturas, povos e religiões.

" O toque na areia, a construção de cenas e a transformação dos cenários parecem por si só propiciar o duplo processo de cura e de
transformação, meta da terapia. Ao brincar com a areia o paciente entra em contacto com os aspectos autocurativos presentes no seu inconsciente. As
partículas de areia, criadas pela desintegração de rochas, são ideais para dar forma ás imagens simbólicas, que possibilitam uma conexão entre consciência e
inconsciência. Os limites da caixa e a relação empática com o terapeuta oferecem um espaço que ao mesmo tempo prove a liberdade de expressão e a continência protectora, o que encoraja a criança ou o adulto a experienciar a sua vivência num contexto seguro e sem interpretações."
Kalff (1981)
"O contato com a areia traz sentimentos profundos e possibilita a ligação com o inconsciente. Através do movimento na areia, revivem-se memórias guardadas, onde a energia psíquica começa a se movimentar e é libertada, provocando uma emoção. Assim, a aproximação às imagens feitas na areia dá-se, não pela palavra, mas por outras formas não verbais como as corporais, as sensações e os sentimentos".
Ammann (2005)
"A areia em estado seco tem as propriedades fluidas da água, e no estado molhado é firme e moldável como a terra"
Ammann (2002)
As miniaturas incluem representações de animais selvagens e domésticos, carros, comboios e outros meios de transporte, igrejas, casas, figuras humanas, religiosas, em resumo diversos objetos simbólicos tanto do nosso mundo real como imaginário, permitindo um contacto directo, tridimendisional da realidade e da fantasia, facilitando a criação de cenários, a representação e dramatização de histórios. Os objectos ganham vida própria transcendem-se e dão vida própria à imagem construida e criada. O jogo de areia representa assim o espelho da alma, espaços de criatividade e imaginação (...).



